Doutrinação ideológica e política nas escolas

Doutrinação ideológica e política nas escolas

A Coreia do Norte, presidida desde 2011 pelo general Kim Jong Un, foi (re)apresentada aos meus filhos em sala de aula, por um professor de história, como exemplo de democracia que desponta no mundo. Isto já nos últimos anos do Ensino Médio. E com direito a uma longa reportagem em vídeo, com exibição de manifestações populares de amor supremo ao supremo líder. E muitos testemunhos de coreanos sobre a alegria de lá viver, sob regime verdadeiramente democrático (desventurado o coreano, sabemos nós, que disser o contrário…) – o que, segundo o dito professor de história, constitui a prova cabal da efetiva existência e exercício da democracia e liberdade naquele país, e portanto inverídicas quaisquer afirmações em sentido contrário, obviamente vindas de pessoas “mal informadas”.

Mais recentemente, um outro professor, de Literatura e Obras, permaneceu durante quase toda a aula fazendo proselitismo, tecendo considerações depreciativas e relatos parciais e incompletos sobre o desempenho do presidente da República Jair Bolsonaro. Colérico, vaticinou que em breve o governo federal irá proibir e banir livros ou textos com temáticas sobre racismo, negros, indígenas, homossexuais, favelados (pois essas minorias, parecia acreditar o docente, constituem “propriedade” da esquerda).

São recorrentes também os pronunciamentos de alguns professores buscando, inacreditavelmente, incutir um sentimento de culpa nos alunos, por serem filhos de pais “ricos” (e todos os ricos são “alienados”). Culpados, porque seus pais podem pagar uma escola particular; culpados por serem brancos (segundo um professor, ainda cavalgamos em negros e se eles reclamam, “ai ai nhô-nhô!”, nós os fustigamos, “cala a boca, besta!”); culpados por manterem os dentes escovados e limpos; culpados por sonharem ser médicos, advogados, engenheiros; culpados por terem uma casa onde morar (“quando se depararem com um mendigo na rua, vocês devem parar e chorar”, proclamou certa vez uma professora, sem qualquer outro estímulo para suscitar um debate sério e proveitoso sobre tema tão relevante); culpados pelas roupas lavadas e limpas; culpados (meu Deus!), por serem felizes, “enquanto há tanta gente infeliz”. Relatos assim são constantes. E o silêncio em sala é a regra.

O que me faz concluir que a “educação bancária” no Brasil, denunciada e criticada por Paulo Freire – algo como (bem resumido): o educador, agente da burguesia e das elites, “deposita” nos dóceis educandos, meros recipientes a serem “enchidos”, retalhos da realidade e sua verbosidade alienada e alienante -, ponto de partida para o desenvolvimento de sua pedagogia, terá sempre lugar cativo nas salas de aula, porém sob contextos os mais diversos e não necessariamente sob aquele, específico, imaginado pela visão freiriana. Pois o educador será sempre “o que sabe” e por isso fará os “depósitos”, na moeda de seu interesse ou ideologia, na “conta bancária dos educandos”, que são os que “não sabem”.

“É dever e responsabilidade dos pais ou responsáveis o constante exercício de diálogo com os filhos, sobre o que aprenderam na escola e como foi ensinado”

Qual a solução? Independentemente da implementação de programas como o “Escola sem Partido”, ou de equivocadas exortações visando desestimular crianças e adolescentes a se interessarem por política nas escolas, acredito que o remédio e a prevenção para qualquer tipo de doutrinação ideológica ou política está em casa. É dever e responsabilidade dos pais ou responsáveis o constante exercício de diálogo com os filhos, sobre o que aprenderam na escola e como foi ensinado, qual foi o tema do dia, quanto às diferentes matérias curriculares. A partir daí, e se o caso, cabe aos pais o contraponto, sobretudo quando falha o educador escolar ao emitir sua opinião pessoal, eventualmente “alienante e alienada”, sobre determinado assunto, ou quando atua de forma parcial, apresentando ou impondo apenas uma das versões ou teorias sobre dada questão política, histórica ou filosófica.

Já advertia Immanuel Kant que do mestre se espera, não que ensine pensamentos, mas que ensine a pensar. Infelizmente nem sempre é assim. Então, quando os pais ou responsáveis assim se engajam em casa, participando ativamente da vida escolar, imagino que não há muito o que temer. Na verdade, aproveita-se o diálogo em família, já com o devido contraponto, para também instigar nos jovens educandos a curiosidade, e assim estimular a pesquisa, o que lhes permitirá adquirir uma visão realmente crítica sobre qualquer assunto. Não há mais desculpas para que assim não se proceda. A tecnologia representada pela internet nos permite hoje em dia rápido e fácil acesso (que já chega a mais de 70% dos brasileiros, segundo últimos dados do IBGE) a um vasto cabedal de conhecimento e informações.

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